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Tirza Fanini, numeróloga, pesquisadora de temas esotéricos. Graduada e pós-graduada em Língua Portuguesa pela PUC/Paraná e pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior pela UNIR/RO. Palestra proferida em 28/04/2001, no Espaço Cultural Era de Aquárius.


Referências:

  • DAVIES, Paul, A mente de Deus, Ediouro, Rio de Janeiro, 1994.

  • KRAMER ,Heinrich e James Sprenger, Malleus Maleficarum - O Martelo das Feiticeiras, 7ª edição, Editora Rosa dos Tempos Ltda, Rio de Janeiro, 1991.

  • LEMOS, José Augusto, Deus Existe?, Super Interessante, ano 15, nº 1, Jan. 2001, pg 60/65
 

CIÊNCIA E RELIGIOSIDADE
Tirza Fanini

Desde a Antigüidade já se falava sobre o fato de que o homem deveria ser o resultado da união da mente, corpo e espírito. Platão entendia que existia um mundo abstrato ligado ao mundo material, ilustrando esse mundo com o Mito da Caverna. Já Aristóteles, seu discípulo, acreditava num mundo como um organismo vivo, com objetivos definidos . Até a famosa frase de Sócrates: "conhece-te a ti mesmo", deixa-nos a entender que a resposta da nossa vida material está em algo abstrato. Mesmo assim, o homem relutou ou ainda reluta em querer provar a causa da existência humana, analisando apenas um desses aspectos, abrindo espaço para discussões como: Deus existe? Quem tem razão, a ciência ou a fé em alguma divindade? Por que será que teimamos em não ver? Em não apenas crer?

A Idade Média é considerada como a Idade das Trevas, pois em nome de Deus, nada poderia ser descoberto ou comprovado pela ciência, se o experimento não viesse ao encontro com o que a Bíblia Sagrada preconizasse, ou melhor, se não passasse pelo crivo da Santa Inquisição. Como exemplo de que a Igreja castigava àqueles que não concordassem com o que o Malleus Maleficarum, manual oficial da Inquisição, escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, temos Giordano Bruno que foi queimado vivo em Roma, porque ensinava a teoria do polonês Copérnico, de que a Terra realizava diariamente um movimento de rotação sobre si mesma e que os planetas gravitavam em volta do Sol. A Inquisição não só proibiu Galileu de ensinar as suas teorias relativas ao sistema solar, como também o obrigou a assinar um documento no qual confessava que a teoria de Copérnico era uma grosseira falsidade. Pelo fato de renegar suas teorias científicas, não foi para a fogueira, mas condenado à prisão perpétua e o seu livro incluído no Ïndex das obras proibidas.

Esses são apenas alguns dos exemplos do cerceamento que a Igreja impôs à ciência durante esse período negro da História. Todos os que não comungavam com os dogmas católicos eram executados pela Santa Inquisição que aterrorizou a Europa medieval. Milhares de pessoas foram queimadas vivas, porque eram reconhecidas como bruxas. Em nome de Deus, uma média de duas mulheres por dia foi executada, excetuando-se apenas aos domingos. O braço poderoso da Igreja estendia-se por toda parte através das Cruzadas, que não eram nada mais, nada menos do que exércitos formados pelos senhores feudais, que em troca de levar padres para regiões consideradas bárbaras, ficavam autorizados a saquear as vilas e fazer reféns para serem usados como escravos.

Nada disso tem a ver com o Cristo que veio e foi crucificado por pregar justamente o contrário. Chega-se à conclusão de que durante esse período, a Igreja Católica afastou-se dos ensinamentos cristãos. Jesus pregava o amor universal, a caridade e a humildade; porém, a cobiça e a ânsia pelo poder levaram alguns clérigos a praticar a venda de indulgências aos pecadores, fato que revoltou Martinho Lutero, um dos cardeais da Igreja.

Creio que podemos parar um pouco e analisar esses fatos. O homem medieval entregou-se de uma forma cega à religião, que além de renegar todo o conhecimento adquirido na Antigüidade, permitiu que as obras da época fossem destruídas e mais, consentiu que milhares de pessoas fossem mortas, em nome desse Deus. No início talvez não fosse consentimento, mas sim medo, mas depois de quinhentos anos de controle do pecado através do terror causado pelas torturas atrozes, esse homem medieval chega em meados do século XVI acreditando piamente em tudo o que os "Homens Santos" pregavam, assim como, que a Santa Inquisição cumpria com o seu divino poder.

Muito bem, já sabemos até onde a fé do homem em uma crença pode levá-lo. Agora façamos uma viagem no tempo e imaginemo-nos lá, naquela época em que Lutero joga em praça pública todos os podres da Igreja. Ele, um cardeal, um homem que detinha um certo poder, portanto, influente, expõe ponto por ponto no quê a Igreja Católica através dos seus bispos e cardeais havia se transformado. Como será que esse homem medieval se sentiu? Aquilo de mais sagrado que existia para ele, a ponto de não só assistir, mas aplaudir a morte de milhares de pessoas, ruiu. Veio a baixo. Só havia um caminho dali para frente. Acreditar apenas naquilo que pudesse provar. E com isso, o homem voltou-se para a ciência, iniciando um período científico. Mais uma vez, o homem busca apenas uma faceta de toda a sua formação.

Nessa época, toda a sabedoria dos antigos alquimistas, das "bruxas" que detinham o conhecimento das ervas, estava como que esquecido, anulado sob as cinzas de todos aqueles que morreram por não comungarem da mesma crença. Agora, não só o misticismo estava enterrado, mas também a fé inabalável num Deus criador de todas as coisas. Começa a surgir o homem científico que só vai acreditar naquilo que for resultado dos seus experimentos. Graças a essa atitude, tivemos as grandes descobertas e invenções e a tecnologia conseguiu dar um salto quantitativo e qualitativo no século passado.

O poder que o método científico obteve nesses últimos quinhentos anos, deu aos cientistas uma aura de poder, a ponto de acharmos que fossem seres divinos, acreditando apenas no poder do pensamento racional. Algumas personalidades foram como que endeusadas pelos resultados de seus experimentos. Observe-se que na escola, não nos ensinam que os inventores e cientistas são pessoas comuns e que para chegarem ao resultado positivo de alguma experiência, passaram muitos anos pesquisando, estudando, analisando, verificando, etc. A imagem vendida às crianças é que os cientistas são gênios com superpoderes, seres superdotados a ponto de dar a idéia de que não pertencem à mesma categoria do restante dos mortais. Mas isso, é resultado de colocar a ciência, a descoberta científica como causa propulsora de tudo o que há a nossa volta.

Será que foi só o conhecimento científico, o pensamento racional que levou nossos cientistas chegarem às conclusões obtidas? Não podemos descartar a intuição. A própria ciência já se utiliza dessa hipótese, quando através da mecânica quântica conhecemos a teoria do Princípio da Incerteza de Heisenberg, a qual vai contra o pensamento científico e rígido, onde se acredita que através da ciência tudo se explica, podendo até prever o futuro. É esse Princípio da Incerteza que leva Einstein a protestar, proferindo a sua famosa frase "Deus não joga dados", pois para ele que falava o tempo todo em Deus, a imprevisibilidade da física quântica era demais .

Creio que tentar explicar Deus através da ciência, é um objetivo impossível de se alcançar, porque Deus além de ser o infinito imponderável, algo que nós, ainda não podemos explicar, é uma energia sutil, a qual dificilmente poderá ser explicada ou decifrada através de experimentos materiais, físicos... ela não é uma extensão da ciência, assim como não deverá substituí-la, mas juntas deverão compor o mundo físico.

Porém, para tentar compreender essa energia, comungo com Einstein, que ao ser indagado sobre a existência de Deus, afirmou: "Acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia e na ordem da natureza, não em um Deus que se preocupa com os destinos e as ações dos seres humanos". Ao se reportar ao filósofo holandês, admitiu que Deus e o Universo seriam a mesma substância.

Para nós, esotéricos, o mundo físico e o abstrato ou sutil, está interligado, onde um completa o outro. Para compreender melhor, gosto de utilizar como exemplo, Newton , físico inglês do século XVII e, que muito do que se aprende ainda nos bancos escolares, se deve a ele. Sabemos que ele descobriu a lei da Gravidade observando uma maçã cair ao solo. Ora, será que ele é um mágico? Estava então, o senhor Newton sentado debaixo de uma macieira e ... eureka!!! A lei da gravidade, com a qual gerou toda a disciplina da dinâmica, surgiu como por encanto. Não é assim que aprendemos na escola? Não é isso que nos dão a entender? De que as grandes descobertas na ciência apareceram por acaso. Fazendo com que nos sintamos míseros mortais em relação a esses gênios da física, da química, etc.

Sabemos que o Logos ao assumir a responsabilidade por uma determinada galáxia, após definir o seu campo de atuação, coloca ali tudo o que aquela espécie deverá desenvolver. Portanto, o termo descobrir é o mais exato. Pois tudo o que deveremos aprender, já está aí à nossa volta, só faltando "des-cobrir". Para isso, o homem deverá estar em plena comunhão com o Cosmos, para que possa captar intuitivamente o que ele tem condições, através de seu conhecimento, para que essa descoberta possa vir à tona. Para tanto, dois potenciais do ser humano devem ser observados: o seu conhecimento através de estudos e experimentos e a sua mente intuitiva.

Sabemos que no ponto evolutivo que a humanidade se encontra atualmente, o chakra correspondente a terceira visão, o mental, tem ainda muito para desenvolver. E é ele o responsável em decodificar a intuição em um processo de palavras ou formas. Portanto, não interessa a religião da pessoa, mas sim o seu desenvolvimento mental, para que possa captar o que está à sua volta e poder transformar em formas inteligíveis ao restante da humanidade. Todos nós temos capacidade para isso, bastando apenas o desenvolvimento mental e o conhecimento científico. Não podemos abandonar este último pois é através dele que os nossos cientistas chegam a alguma conclusão e se tornam conhecidos e famosos pelos seus experimentos, lutando e estudando muito até alcançar a notoriedade.

É lógico que sem o pré-requisito científico, mesmo que seja um místico voltado somente para o conhecimento da alma, ele não terá condições de ser um grande cientista ou inventor, pois lhe falta o conhecimento técnico e/ou científico. Enfim, os grandes inventores, músicos, pintores, etc, também eram portadores de um senso intuitivo acima da média, consciente ou inconscientemente. Sabemos, que uma grande maioria deles faziam parte de sociedades arcanas como o Rosacruz, ou então eram kardecistas ou esotéricos, enfim, os nossos químicos e cientistas de hoje, nada mais são do que eram os alquimistas do passado, os quais sabiam misturar e transmutar elementos da natureza, respeitando suas qualidades sutis e seus campos energéticos. E assim, entre a ciência e a crença em algo superior e invisível, poucos cientistas declaravam-se ateus. "a grande maioria prefere o termo 'agnóstico', criado em 1869 pelo biólogo inglês Tomas Huxley - aquele que ganhou o apelido de 'Buldogue de Darwin', por sua incansável defesa da Teoria da Evolução, frente aos ataques do clero. Há uma grande diferença entre as duas posições: dizer-se ateu é recusar a existência de um Deus, enquanto 'agnosticismo' (sem conhecimento, em grego) significa admitir apenas que não se sabe nada sobre dimensões sobrenaturais do Universo - e que o mais provável é que seja impossível superar essa ignorância" .

Devemos perceber que os cientistas do passado, talvez pela situação religiosa da época (a Santa Inquisição), tivessem encontrado uma forma de dizer que a ciência não conseguirá explicar o imponderável, pois todos os místicos sabiam que no plano evolutivo que a humanidade se encontra, é impossível tentar explicar Deus, do qual só sabemos que é a energia geradora de todas as coisas sem se saber como. Explicar o inexplicável.

Mas a intenção dessas nossas conjecturas, é o de chegar à conclusão de que ciência e religião parecem que correm juntas, paralelas e, em dado momento, fundem-se, contraem-se como se fossem expelir algo ou melhor, dar vida a alguma coisa, para logo depois, voltar cada uma a seguir o seu caminho, para mais na frente, novamente se operar novo milagre, mas não; elas fazem uma dança simbiótica, onde uma depende da outra dando ao homem condições melhores de vida. Por isso, é que nem o religioso deve ser fanático a ponto de recusar os procedimentos e métodos científicos, como também, o cientista não deverá ignorar essa energia que observa, sonda e dá propulsão ao processo evolutivo da humanidade, que é conhecida como intuição, inspiração ou estalo.

Para aqueles que se dedicam exclusivamente ao espiritismo, esoterismo ou qualquer seita mística, devem ter em mente que não basta apenas a sua fé para evoluir. Devem procurar desenvolver o chacra frontal através de estudos, leituras, debates, palestras para que possam sempre atrair o que há de melhor para suas mentes intuitivas. Procurar deixar sempre a mente aberta para o novo, a tudo àquilo que ao se vivenciar, possa ser somado ao conhecimento já obtido, a fim de que se possa dar condições para que uma nova idéia venha a ser gerada.

Prova de que a necessidade para o homem do III Milênio é a construção do conhecimento, basta observar as exigências que o mercado de trabalho está fazendo. Hoje, um analfabeto só encontrará trabalho na economia informal, pois até para garis existe a obrigatoriedade de que tenha o ensino fundamental.

Acredito que o século passado embasou-se no conhecimento e utilização da tecnologia. Este, será o do desvendamento de muitas questões relativas à ciência, assim como o desenvolvimento de todas as formas de saberes.

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